Quando a Selic começa a cair, alguns setores da Bolsa podem sentir os efeitos de forma muito mais intensa.
Entre os principais beneficiados estão o varejo e a construção civil, justamente dois segmentos que dependem bastante de crédito, financiamento e do poder de compra das famílias.
A taxa Selic influencia boa parte dos juros cobrados na economia brasileira.
Quando ela está muito elevada, empréstimos, financiamentos e compras parceladas ficam mais caros. Famílias tendem a consumir menos e empresas encontram maior dificuldade para financiar seus projetos e dívidas.
Quando começa um ciclo de redução da Selic, essa dinâmica pode gradualmente mudar.
Por que o varejo pode se beneficiar?
Imagine uma família pensando em trocar a geladeira, comprar uma televisão ou reformar a casa. Muitas dessas compras são realizadas parceladas.
Com juros elevados, a prestação fica maior e uma parcela dos consumidores simplesmente adia a compra.
Conforme os juros caem e as condições de crédito melhoram, essas prestações podem ficar mais acessíveis.
Isso tende a favorecer especialmente empresas ligadas a eletrodomésticos, móveis, eletrônicos, moda e outros segmentos bastante dependentes do consumo doméstico.
Existe ainda um segundo efeito importante: muitas varejistas possuem dívidas relevantes. Juros menores podem reduzir gradualmente suas despesas financeiras, ajudando na recuperação dos lucros.
Podemos resumir o ciclo assim:
Selic menor → crédito mais barato → maior consumo → mais vendas → menor despesa financeira → possibilidade de lucros maiores.
É justamente por essa sensibilidade aos juros que as ações de algumas varejistas podem reagir rapidamente quando o mercado começa a acreditar em um ciclo consistente de cortes da Selic.
E por que as construtoras também podem ganhar?
No mercado imobiliário, a influência dos juros é ainda mais fácil de perceber.
Poucas pessoas compram um imóvel à vista. Grande parte das vendas depende de financiamento imobiliário e, por isso, o custo do crédito interfere diretamente na capacidade de compra das famílias.
Quando os juros começam a cair, financiamentos podem gradualmente se tornar mais acessíveis. Uma prestação que anteriormente não cabia no orçamento pode passar a caber, aumentando o universo de potenciais compradores.
Isso pode significar mais procura por imóveis, melhora nas vendas e maior velocidade de lançamentos para as incorporadoras.
As próprias empresas também são beneficiadas. Construir grandes empreendimentos exige muito capital e, dependendo da estrutura financeira da companhia, juros menores podem reduzir o custo de financiamento dos projetos e melhorar sua rentabilidade.
O ciclo, portanto, pode ser:
Selic menor → financiamento mais acessível → maior procura por imóveis → aumento das vendas → menor custo financeiro → melhora dos resultados das construtoras.
A Bolsa costuma se antecipar
Existe um detalhe muito importante para o investidor: a Bolsa normalmente não espera todos esses efeitos aparecerem nos balanços das empresas.
O mercado trabalha com expectativas.
Se os investidores começam a acreditar que a Selic continuará caindo nos próximos meses, as ações mais sensíveis aos juros podem começar a subir antes mesmo de uma melhora significativa aparecer nas vendas e nos lucros.
Além disso, juros menores tornam a renda fixa relativamente menos atraente e reduzem a taxa utilizada pelo mercado para trazer os lucros futuros das empresas a valor presente. Isso pode aumentar o valor atribuído às ações, principalmente de companhias cujo crescimento esperado está mais distante no tempo.
Varejo e construção podem ser protagonistas de um ciclo de queda dos juros?
Historicamente, são dois dos setores que merecem maior atenção quando o Brasil entra em um ciclo consistente de redução da Selic.
Isso não significa que toda varejista ou construtora necessariamente irá subir. Endividamento excessivo, baixa rentabilidade, problemas de gestão ou resultados operacionais ruins continuam fazendo diferença.
Mas, para empresas financeiramente saudáveis, uma queda consistente dos juros pode criar uma combinação bastante favorável:
mais crédito + mais consumo + menor custo financeiro + melhores expectativas para os lucros.
Por isso, quando o investidor acredita que estamos entrando em um novo ciclo de queda da Selic, varejistas e construtoras costumam estar entre os primeiros setores da Bolsa a entrar no radar.
