Entenda o motivo da forte alta das ações
As ações da Moderna (MRNA) protagonizam nesta quarta-feira (19) um dos movimentos mais impressionantes de Wall Street, chegando a mais do que dobrar de valor durante o pregão.
Mas o que aconteceu para uma empresa desse tamanho valorizar mais de 100% em apenas algumas horas?
A explicação está em uma notícia que pode mudar significativamente as perspectivas futuras da companhia: resultados positivos de um importante estudo envolvendo uma terapia personalizada contra o câncer, desenvolvida pela Moderna em parceria com a farmacêutica Merck.
Mais do que o sucesso de um único tratamento, o mercado enxergou no anúncio um sinal de que a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), que ganhou enorme destaque durante a pandemia, também poderá ter um papel importante no combate ao câncer.
E é justamente essa possibilidade que ajuda a explicar uma reação tão forte das ações.
O que a Moderna anunciou?
Moderna e Merck divulgaram resultados positivos de um estudo avançado envolvendo 1.137 pacientes com melanoma de alto risco, um tipo de câncer de pele.
Os pesquisadores compararam pacientes tratados apenas com o Keytruda, uma das principais terapias contra o câncer da Merck, com aqueles que receberam o Keytruda combinado ao intismeran, tratamento personalizado desenvolvido pelas duas empresas.
Os resultados mostraram que a combinação apresentou desempenho superior ao uso do Keytruda sozinho, conseguindo aumentar o período em que os pacientes permaneceram sem o retorno ou avanço da doença.
Para o mercado, o resultado é especialmente importante porque estamos falando de um estudo de Fase 3, uma das últimas e mais importantes etapas de testes antes de uma possível aprovação pelas autoridades de saúde.
Ou seja: o tratamento ainda não está automaticamente aprovado, mas acaba de superar uma etapa fundamental.
Estamos falando de uma vacina contra o câncer?
O tratamento tem sido popularmente chamado de “vacina personalizada contra o câncer”, embora seja diferente das vacinas tradicionais que conhecemos.
A grande inovação está justamente na personalização.
Após a retirada do tumor, são analisadas características específicas das células cancerígenas daquele paciente. A partir dessas informações, é desenvolvido um tratamento utilizando RNA mensageiro (mRNA) para ajudar o sistema imunológico a identificar e combater possíveis células tumorais.
Em uma explicação bem simples, é como se o tratamento fornecesse ao sistema imunológico “instruções” sobre aquilo que ele deve procurar e combater.
E cada tratamento pode ser desenvolvido levando em consideração as características do tumor daquele paciente.
Por que isso fez as ações subirem mais de 100%?
Para entender a reação da bolsa, precisamos compreender uma característica importante das empresas de biotecnologia.
Grande parte do valor dessas companhias está nos medicamentos que ainda estão sendo desenvolvidos.
Imagine uma empresa que possui um tratamento que poderia gerar bilhões de dólares em vendas caso chegasse ao mercado. Enquanto esse medicamento ainda está nas fases iniciais de testes, existe um enorme risco de que ele simplesmente não funcione.
Por isso, os investidores atribuem um grande desconto ao seu potencial.
À medida que os estudos avançam e apresentam resultados positivos, o risco diminui e o valor potencial daquele medicamento aumenta.
Foi exatamente isso que aconteceu com a Moderna.
Ao apresentar resultados positivos em um estudo avançado, o mercado passou a enxergar uma possibilidade muito maior de que essa tecnologia possa efetivamente se transformar em um novo negócio para a companhia.
Mas existe um segundo motivo — e provavelmente ainda mais importante.
O mercado não está olhando apenas para o melanoma
Aqui está uma das principais explicações para uma valorização tão expressiva.
O mercado não está enxergando apenas o potencial de um tratamento contra melanoma.
Os investidores começaram a considerar a possibilidade de que a mesma tecnologia possa ser utilizada futuramente contra outros tipos de câncer.
A própria Moderna possui estudos dessa tecnologia em diferentes tumores, incluindo câncer de pulmão, rim e bexiga. Seu pipeline mostra programas em diferentes fases de desenvolvimento nessas áreas.
Isso não significa que a tecnologia necessariamente funcionará em todos esses casos. Cada novo tratamento precisará passar por seus próprios estudos.
Mas o sucesso no melanoma representa uma importante demonstração de que a estratégia pode funcionar.
E isso muda bastante a percepção dos investidores sobre o potencial futuro da companhia.
A Moderna pode deixar de ser apenas “a empresa da vacina da Covid”
Esse é outro ponto fundamental para entender a alta das ações.
Durante a pandemia, a Moderna ficou mundialmente conhecida graças à sua vacina contra a Covid-19.
O problema veio depois.
Com a redução da demanda pelas vacinas, as receitas da empresa diminuíram significativamente e surgiu uma grande dúvida entre os investidores:
A Moderna conseguiria transformar sua tecnologia de mRNA em outros medicamentos de sucesso?
Essa questão acompanhou a companhia nos últimos anos.
O anúncio desta quarta-feira fornece uma das respostas mais importantes até agora.
Se a tecnologia realmente conseguir avançar na oncologia, a Moderna poderá construir uma nova e relevante fonte de receitas, diminuindo sua dependência do mercado de vacinas respiratórias.
Por isso, estamos diante de uma possível mudança na própria história da empresa.
Por que a Merck não sobe tanto quanto a Moderna?
Outro ponto interessante é que o tratamento está sendo desenvolvido em parceria com a Merck, mas a reação das ações das duas companhias é bastante diferente.
A explicação está principalmente no tamanho e na importância relativa desse projeto para cada empresa.
A Merck é uma gigante farmacêutica, com diversos medicamentos e fontes de receita. Portanto, mesmo um novo tratamento extremamente bem-sucedido representa apenas uma parte de seus negócios.
Para a Moderna, o impacto pode ser proporcionalmente muito maior.
Uma forma simples de entender seria:
Para a Merck, esse tratamento pode representar mais um grande medicamento.
Para a Moderna, ele pode representar uma nova fase da companhia.
Essa diferença ajuda a explicar por que as ações da Moderna apresentam uma reação muito mais intensa.
Ainda existem riscos?
Sim, e esse ponto não pode ser ignorado.
O resultado divulgado é extremamente importante, mas ainda existem etapas pela frente.
Será necessário conhecer mais detalhes dos estudos, acompanhar os próximos resultados, observar eventuais efeitos adversos e, principalmente, aguardar o processo de análise pelas autoridades regulatórias.
Também existe uma questão comercial importante.
Como estamos falando de um tratamento personalizado, sua produção tende a ser mais complexa do que a fabricação de um medicamento tradicional.
Será necessário avaliar custos, capacidade de produção em grande escala, preço do tratamento e velocidade com que ele poderá ser disponibilizado aos pacientes.
Portanto, resultado positivo não significa que todos os riscos desapareceram.
Depois de subir mais de 100%, ainda existe oportunidade?
Essa provavelmente será uma das principais perguntas dos investidores depois do movimento desta quarta-feira.
A notícia representa uma mudança relevante nas perspectivas da Moderna e ajuda a justificar uma forte reavaliação das ações.
Por outro lado, quando uma ação sobe mais de 100% em apenas um pregão, significa que muitas expectativas positivas também foram rapidamente incorporadas ao preço.
O investidor que compra depois dessa valorização já está pagando por uma Moderna bastante diferente daquela que existia antes do anúncio.
Por isso, é importante separar duas coisas.
A primeira é a qualidade da notícia, que é indiscutivelmente relevante.
A segunda é o preço que o mercado está disposto a pagar por essa notícia.
Uma excelente notícia para uma empresa não significa necessariamente que suas ações continuarão subindo na mesma intensidade.
O que muda na tese da Moderna?
Podemos resumir a mudança de percepção do mercado de maneira bastante simples.
ANTES: Moderna = empresa fortemente associada às vacinas + diversos projetos ainda cercados de incertezas.
AGORA: Moderna = vacinas + resultado importante no tratamento contra o câncer + possibilidade de entrada relevante no mercado de oncologia + potencial de utilização da tecnologia em outros tumores.
É essa mudança que ajuda a explicar por que o mercado está reavaliando tão rapidamente o valor da companhia.
A disparada superior a 100% das ações da Moderna não aconteceu simplesmente porque a empresa anunciou “uma nova vacina”.
O que realmente chamou a atenção dos investidores foi a possibilidade de estarmos diante da validação de uma nova aplicação da tecnologia de RNA mensageiro no tratamento do câncer.
Depois de se tornar mundialmente conhecida pelas vacinas contra a Covid-19, a Moderna tenta demonstrar que sua tecnologia pode ser utilizada em uma variedade muito maior de medicamentos.
O resultado positivo no melanoma representa um passo importante nessa direção.
Se o tratamento avançar até sua aprovação e, principalmente, se essa tecnologia apresentar bons resultados contra outros tipos de câncer, a companhia poderá construir uma nova e importante frente de crescimento nos próximos anos.
É justamente por isso que a reação das ações foi tão intensa.
O mercado não está precificando apenas um novo tratamento contra o melanoma. Está começando a precificar a possibilidade de uma Moderna muito maior e mais diversificada no futuro.
Para o investidor, entretanto, fica um alerta importante: depois de uma valorização superior a 100% em apenas um pregão, parte considerável desse futuro já pode estar incorporada ao preço das ações.
A partir daqui, os próximos resultados clínicos e avanços regulatórios serão fundamentais para determinar se essa enorme expectativa será confirmada.
