No último sábado, dia 28, os Estados Unidos e Israel realizaram ataques conjuntos contra o Irã, colimando na morte do aiatolá Ali Khomenei, líder supremo do país, resultando em uma elevada incerteza geopolítica. O Irã é um país relevante na produção de petróleo e que controla o estreito de Hormuz. Após o ataque, o país anunciou o fechamento do estreito, uma das rotas mais importantes do mundo para a exportação de petróleo, equivalente a um quinto do fluxo global de petróleo. Além disso, a resposta do Irã de atacar os aliados americanos na região, focando justamente na infraestrutura de extração de petróleo, contribui ainda mais para o cenário de incerteza.
Consequentemente, o preço do petróleo no mercado internacional disparou e deu-se início a um movimento global de aversão ao risco, em que, praticamente, todos os ativos de risco depreciaram, e o dólar se fortalece.
Em um primeiro momento, o real respondeu de maneira esperada à um evento global de aversão ao risco e depreciou quase 3% nos dois primeiros dias após o conflito, enquanto o preço do petróleo avançou 12% nesse mesmo período.
Entretanto, o Brasil passou por mudanças estruturais recentes que o colocam na possibilidade de se beneficiar das consequências do conflito. O Brasil é exportador líquido de petróleo desde novembro de 2016. Até 2014, o Brasil era estruturalmente um importador líquido de petróleo, com um déficit médio de US$5 bilhões por ano, entre 1998 e 2013. Com a maturação dos investimentos no pré-sal e o consequente aumento na produção, vimos a dinâmica mudar de maneira significativa. Saímos de uma posição líquida de –US$13,3 bilhões ao fim de 2014 para um superávit de US$32,5 bilhões ao fim de 2025, refletindo a consolidação da exploração do pré-sal e transformando o Brasil em um dos maiores produtores de petróleo do mundo, com perspectivas positivas de aumento na produção nos próximos anos.
Dessa forma, o real se tornou uma moeda bastante sensível às oscilações nos preços internacionais do petróleo. Uma estimativa do banco J.P. Morgan sugere que o real é uma das moedas com maior sensibilidade ao preço do petróleo, com uma alta semanal de 1% no preço do petróleo implicando em uma apreciação semanal de cerca de 0,10% do real frente ao dólar. Esse movimento foi consistente com o observado logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia em março de 2022, e ilustra o comportamento do preço do petróleo e do câmbio naquele momento.
Por outro lado, o aumento no preço do petróleo traz preocupações relacionadas ao aumento do custo de vida, em particular do preço dos combustíveis, que tem peso relevante no IPCA. A gasolina é o item com maior peso individual no IPCA, respondendo por cerca de 5% do índice. Portanto, para cada 1% de alta no preço da gasolina nas bombas dos postos de combustíveis, o IPCA aumenta em 0,05 pontos percentuais.
Essa preocupação se torna ainda mais latente uma vez que a Petrobrás opera através do Preço de Paridade de Importação (PPI). Esse programa garante a saúde financeira da empresa ao atrelar o preço que ela cobra pelos combustíveis nas refinarias ao preço internacional do petróleo. Portanto, temos um canal direto de transmissão de um eventual choque no preço do petróleo.
Entretanto, nesse momento, a Petrobrás tem uma margem para absorver esse choque, pelo menos incialmente, uma vez que o preço de distribuição tem ficado acima do preço importado ao longo desse início de 2026, diferentemente do que vimos em 2022, quando o conflito na Ucrânia iniciou em um momento em que os preços domésticos já estavam defasados em cerca de 10% frente ao internacional.
Além disso, o impacto na inflação oriunda da pressão de custo dos combustíveis pode ser compensada pela apreciação do real em resposta a alta no preço do petróleo. Para quantificar isso, estimamos o repasse de um choque de 10% no preço do petróleo para o câmbio e inflação, utilizando um modelo de vetores autorregressivos capaz de capturar a dinâmica entre essas variáveis, além de capturar a mudança dessa dinâmica ao longo do tempo, de modo a considerar as mudanças estruturais que a economia brasileira passou no período, especialmente relativas à exploração de petróleo.
Os resultados sugerem que o repasse cambial, quando controlado pelo impacto do petróleo no câmbio, é consideravelmente menor do que o repasse cambial “puro”. Além disso, esse repasse tem diminuído consideravelmente ao longo do tempo.
A interpretação do gráfico à direita é a seguinte: cada linha do gráfico ilustra a resposta do repasse cambial para o IPCA, líquido do impacto do preço do petróleo no IPCA, de acordo com a estrutura da economia no período indicado. Por exemplo, após receber um choque de 10% de alta no preço do petróleo, o repasse cambial líquido para o IPCA, de acordo com a estrutura da economia brasileira em dezembro de 2001, era de 0,4 p.p um mês após o choque, alcançando 1,5 p.p um ano após o choque. Tal repasse caiu consideravelmente considerando a estrutura da economia brasileira em dezembro de 2024: 0,0 p.p um mês após o choque de 0,6 p.p um ano após o choque. Isso reflete o fato do Brasil ter se tornado um player global relevante na exploração de petróleo, em que o aumento das receitas oriundas do aumento do preço do petróleo é capaz de compensar parte dos impactos negativos causados pelo mesmo aumento de preço.
O exercício feito aqui sugere que a economia brasileira deverá passar pelo atual episódio de incerteza com poucos impactos negativos. Por um lado, a atual defasagem entre o preço importado da gasolina e o praticado na distribuição, permite com que a Petrobrás absorva o choque inicial por um tempo. Por outro lado, a pressão de apreciação no real, causada pelo aumento do preço do petróleo, poderá contribuir para evitar um impacto significativo na inflação. Vale ressaltar que, a duração do conflito e seu impacto na oferta de petróleo globalmente poderá resultar em um novo patamar de preços da commodity e, um choque mais severo do que o observado atualmente, pode levar a uma revisão de preços pela Petrobrás mais cedo. De toda forma, o mercado internacional de petróleo se encontrava em uma situação estrutural de sobreoferta antes do início do conflito. Isso sugere que uma vez resolvida a incerteza aguda acerca do confronto, devemos observar a normalização dos preços do petróleo aos níveis observados no início desse ano.
