Fed reafirma posição de aguardar para ver
Como esperado, o Fed manteve a taxa de juros no atual patamar de 4,50%. Com o aumento da incerteza acerca da política econômica do novo governo Trump, além da manutenção da robustez da economia americana e a inflação ainda em 2,8% nos últimos 12 meses, não há muita urgência para o Fed retomar o ciclo de cortes.
Esse contexto foi mencionado pelo comitê em seu comunicado, que apresentou poucas alterações frente ao comunicado da reunião de janeiro, na qual o Fed pausou pela primeira vez. O comitê mantém a visão de que o mercado de trabalho está sólido, com a taxa de desemprego estabilizada em patamares baixos, enquanto a inflação se mantém de certa forma elevada. Convém notar, que o comunicado não menciona a incerteza causada pela política tarifária do governo Trump.

Essa incerteza, entretanto, foi manifestada nas projeções trimestrais dos membros do FOMC. Nessas projeções o Fed mantém a expectativa de mais dois cortes na taxa de juros esse ano, ao passo em que reduziram suas projeções de crescimento do PIB de 2% em dezembro para 1,8% em março, e inflação mais elevada para 2025, com o headline a 2,7% e o núcleo em 2,8%, enquanto em dezembro essas projeções eram de 2,5% em ambas as métricas. Portanto, as projeções sugerem que o comitê enxerga a política tarifária, especialmente a incerteza ao redor da sua implementação, como sendo maléficas para o crescimento e com risco inflacionário. As projeções também mostram que os membros do FOMC veem o atual cenário muito mais incerto do que estava em dezembro, e com maiores riscos de alta para a inflação e de baixa para o crescimento do PIB. Vemos, portanto, as projeções alertando para o risco estagflacionário da política tarifária.

De toda forma, ao manter a projeção de dois cortes nos juros para 2025 enquanto aumentam suas projeções de inflação, o FOMC nos indica que adotará uma postura de olhar através do impacto inflacionário das tarifas, ou seja, tem uma visão de que o impacto será apenas no momento inicial, sem contaminação generalizada para o restante da economia, muito similar à abordagem adotada pelo FOMC em 2018, quando se teve a imposição de diversas tarifas pelo primeiro governo Trump.


Em setembro de 2024, quando o Fed iniciou o ciclo de corte nos juros, o comitê adotou uma postura proativa, tentando se antecipar de uma possível deterioração do mercado de trabalho, que deu os primeiros sinais no início do 2º semestre de 2024. Desde então, esses riscos não se materializaram, e a economia manteve seu ritmo robusto, enquanto a inflação manteve sua trajetória de convergência à meta, mas em um ritmo mais lento que o esperado.


Com a incerteza causada pela perspectiva da guerra comercial, o Fed está sendo obrigado a adotar uma postura reativa e aguardar novos dados para tomar uma decisão sobre os juros. Nesse contexto, vemos espaço para o Fed realizar os dois cortes que projeta para esse ano, entretanto, dada a atual tendência, esses cortes devem ocorrer a partir do 2º semestre, muito provavelmente a partir da reunião de setembro. Na nossa visão, o Fed só agirá antes disso caso haja um sinal inequívoco de que o mercado de trabalho está desacelerando significativamente, o que não é o cenário base.