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Quando pensamos em investimentos internacionais, normalmente Estados Unidos, Europa e China são os primeiros mercados lembrados. Mas existe um vizinho brasileiro que vem passando por uma transformação econômica importante e que pode oferecer oportunidades bastante diferentes das encontradas nos mercados tradicionais: a Argentina.
E o investidor brasileiro consegue acessar esse mercado diretamente pela B3 através do ARGT39, BDR do Global X MSCI Argentina ETF.
Na prática, em vez de tentar escolher individualmente uma ação argentina, o investidor compra um único ativo e passa a ter exposição a uma carteira formada por algumas das principais empresas ligadas à economia do país.
O que é o ARGT39?
O ARGT39 é o BDR negociado na B3 do Global X MSCI Argentina ETF (ARGT), ETF listado nos Estados Unidos que busca acompanhar o índice MSCI All Argentina 25/50.
O fundo existe desde 2011 e atualmente possui aproximadamente US$ 811 milhões em patrimônio, com 25 empresas em sua carteira.
A taxa de administração é de 0,59% ao ano.
Isso significa que, comprando ARGT39 na própria corretora brasileira, o investidor consegue acessar uma carteira de empresas argentinas — ou fortemente ligadas à economia argentina — sem precisar abrir conta em uma corretora no exterior.
Outro detalhe importante: como estamos falando de um ativo internacional negociado através de BDR, sua cotação em reais também possui influência do câmbio.
Quais empresas estão dentro do ARGT39?
A carteira ajuda a entender por que o ETF pode ser interessante.
Entre suas maiores posições atualmente estão:
Mercado Livre – 22,3%
Uma das maiores empresas de tecnologia e comércio eletrônico da América Latina.
YPF – 9,8%
Principal companhia de petróleo e gás da Argentina e uma das empresas mais diretamente expostas ao desenvolvimento de Vaca Muerta.
Vista Energy – 7,2%
Outra importante companhia ligada ao crescimento da produção argentina de petróleo e gás.
Grupo Financiero Galicia – 6,1%
Um dos principais grupos financeiros argentinos.
Pampa Energía – 4,6%
Uma das maiores empresas privadas de energia do país.
Banco Macro – 4,5%
Outro importante banco argentino.
Também aparecem empresas como Transportadora de Gas del Sur, Central Puerto, além de companhias ligadas à mineração e outros setores.
Portanto, o ARGT39 não representa apenas uma aposta na Bolsa argentina. Ele oferece exposição principalmente a alguns dos setores que podem participar diretamente de uma eventual expansão da economia do país.
Energia é uma das grandes histórias por trás do ETF
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes.
Quase 20% da carteira do ARGT está atualmente no setor de energia.
A Argentina possui enormes reservas de petróleo e gás, principalmente através de Vaca Muerta, uma das maiores formações de shale oil e shale gas do mundo.
Caso o país consiga ampliar produção, infraestrutura e exportações nos próximos anos, empresas como YPF, Vista Energy, Pampa Energía e Transportadora de Gas del Sur podem participar diretamente desse crescimento.
Isso também poderia trazer uma consequência importante para a própria economia argentina: maior entrada estrutural de dólares através das exportações de energia.
Portanto, parte da tese do ARGT39 está ligada não apenas à recuperação econômica argentina, mas também à possibilidade de o país se transformar em um participante cada vez mais relevante no mercado internacional de energia.
Bancos podem se beneficiar de uma normalização econômica
O setor financeiro representa aproximadamente 17% da carteira.
E existe uma lógica interessante aqui.
Depois de muitos anos convivendo com inflação extremamente elevada, instabilidade cambial e baixa confiança na moeda, o sistema financeiro argentino opera em uma economia bastante diferente de mercados mais desenvolvidos.
Se houver continuidade da estabilização macroeconômica, expansão do crédito e maior utilização do sistema bancário, bancos argentinos podem encontrar espaço para crescimento.
É justamente por isso que nomes como Grupo Financeiro Galicia e Banco Macro possuem participação relevante no ARGT.
Inflação argentina caiu bastante
Talvez a maior mudança econômica recente esteja acontecendo justamente na inflação.
Depois de atingir níveis superiores a 200% ao ano durante a crise inflacionária, a inflação argentina caiu significativamente.
Nos 12 meses encerrados em julho de 2026, a inflação estava em aproximadamente 33,8%.
Continua sendo elevada quando comparada aos padrões brasileiros ou americanos, mas a direção da trajetória é bastante diferente daquela observada alguns anos atrás.
Além disso, o Congresso argentino vem discutindo novas mudanças institucionais, incluindo alterações nas regras do Banco Central destinadas a restringir o financiamento monetário do Tesouro.
Para o mercado financeiro, inflação, equilíbrio fiscal e estabilidade da moeda são variáveis fundamentais para determinar quanto os investidores estão dispostos a pagar pelos ativos de um país.
O efeito das reformas econômicas
A Argentina vem passando por mudanças relevantes em sua política econômica desde 2023.
Entre os principais temas acompanhados pelo mercado estão redução do déficit fiscal, menor intervenção do Estado na economia, flexibilização de controles, atração de capital estrangeiro e mudanças no funcionamento do mercado cambial.
Não existe garantia de que esse processo ocorrerá sem dificuldades.
Pelo contrário.
A Argentina possui um histórico de crises econômicas, mudanças abruptas de política econômica e elevada volatilidade.
Mas é justamente essa combinação de risco elevado + possibilidade de normalização econômica que torna seus ativos tão sensíveis às mudanças de expectativas.
Quando o mercado começa a acreditar que um país extremamente descontado pode entrar em um ciclo econômico mais previsível, a reprecificação dos ativos pode ser bastante intensa.
A Bolsa argentina já mostrou como reage às mudanças de expectativas
A história recente oferece bons exemplos.
Após a eleição de Mauricio Macri, em 2015, o mercado argentino apresentou forte valorização nos anos seguintes. Posteriormente, quando as expectativas econômicas pioraram e houve nova mudança política, os ativos devolveram boa parte daquele movimento.
Algo semelhante aconteceu depois das eleições de 2023.
Com a expectativa de reformas econômicas, redução do déficit fiscal e mudanças nos controles de capital, a Bolsa argentina apresentou uma forte valorização em dólares até o início de 2025.
Isso demonstra uma característica importante do mercado argentino: ele pode reagir violentamente às mudanças de percepção dos investidores.
Para o bem e para o mal.
ARGT39 ainda tem potencial?
O ARGT39 acumulava aproximadamente 13,5% de valorização em 2026 até 2 de setembro, segundo dados da B3.
Mas analisar apenas o desempenho recente seria simplificar demais a tese.
A pergunta mais importante é outra:
A Argentina está apenas vivendo uma recuperação temporária ou entrando em um processo mais longo de normalização econômica?
Se a estabilização econômica avançar, inflação continuar desacelerando, investimentos estrangeiros aumentarem e setores como energia e financeiro continuarem se desenvolvendo, as empresas argentinas poderão continuar sendo reavaliadas pelo mercado.
É justamente aí que está a principal tese do ARGT39.
Mas os riscos são grandes
Investir na Argentina definitivamente não deve ser encarado como uma aplicação conservadora.
Entre os principais riscos estão:
Risco político: mudanças nas políticas econômicas podem alterar rapidamente as expectativas.
Risco cambial: novas pressões sobre o peso argentino podem afetar empresas e economia.
Inflação: apesar da forte desaceleração, continua elevada.
Dívida e financiamento externo: a Argentina continua dependente do acesso a dólares e do relacionamento com instituições financeiras internacionais.
Volatilidade: ações argentinas podem apresentar oscilações muito superiores às encontradas em mercados mais desenvolvidos.
Existe ainda um ponto específico do próprio ETF: a carteira é relativamente concentrada.
Somente o MercadoLibre representa atualmente mais de 20% do fundo.
Portanto, apesar de possuir 25 empresas, o ARGT não é um ETF tão diversificado quanto grandes ETFs americanos ou globais.
Para quem o ARGT39 pode fazer sentido?
O ARGT39 pode ser utilizado principalmente como uma pequena posição temática dentro de uma carteira internacional diversificada.
Em vez de representar o núcleo da carteira, ele pode funcionar como uma exposição complementar a uma possível recuperação estrutural da Argentina.
É uma tese que combina:
recuperação econômica + energia + bancos + commodities + normalização macroeconômica.
E tudo isso pode ser acessado diretamente através da B3.
Argentina pode ser uma das histórias interessantes da América Latina?
Durante décadas, a Argentina foi associada por investidores a inflação, crises cambiais, controles de capital e instabilidade econômica.
É justamente por partir de uma situação tão deteriorada que qualquer processo consistente de normalização pode provocar grandes mudanças na avaliação de seus ativos.
O ARGT39 oferece uma maneira simples de acompanhar essa transformação.
Em vez de tentar descobrir qual será a grande vencedora argentina, o investidor compra uma cesta que reúne MercadoLibre, YPF, Vista Energy, Galicia, Pampa Energía, Banco Macro e outras empresas relevantes.
É um investimento de risco elevado e que certamente continuará apresentando bastante volatilidade.
Mas, se a Argentina conseguir transformar a atual estabilização em um ciclo mais duradouro de crescimento, investimentos e expansão do setor energético, o ARGT39 pode ser uma das formas mais simples para o investidor brasileiro buscar exposição a essa história através da própria B3.
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