Como as eleições norte-americanas afetam seus investimentos?
A corrida presidencial nos Estados Unidos vai chegando ao fim, marcada por eventos importantes como a desistência do atual presidente, Joe Biden, para concorrer a um segundo mandato, bem como por falas polêmicas e promessas controversas feitas por ambos os candidatos, além de duas tentativas de assassinato contra Donald Trump.
Apesar de tudo, as eleições não foram o principal catalisador da volatilidade excessiva que temos visto nos últimos meses. A corrida presidencial acabou
ficando em segundo plano, até agora, em razão das incertezas quanto à condução da política monetária pelo Fed e das apostas dos investidores de um provável cenário recessivo na economia norte-americana, que poderia levar a um ciclo agudo de cortes nos próximos meses.
Mas, isso, até agora! Nas últimas semanas pré-eleições, mercados passaram a se posicionar para uma eventual vitória do candidato Donald Trump, considerando os resultados das pesquisas mais recentes, que mostram o candidato republicano alguns pontos à frente da democrata Kamala Harris. Não obstante, o próprio mercado questiona o poder de previsibilidade destas pesquisas, considerando os erros dos últimos resultados, inclusive quando Trump foi eleito presidente contra Hillary Clinton.
De qualquer maneira, um novo mandato de Trump, poderia, de acordo com as expectativas do mercado, ser marcado por um período de maior pressão inflacionária, considerando as promessas feitas até o momento.
Neste relatório, vamos condensar as principais promessas e posicionamentos entre os candidatos, onde se encontram e onde divergem, além de concluir com um estudo sobre o efeito dos partidos políticos no comando sobre as principais variáveis macroeconômicas.
Boa leitura!

Pontos de divergência e convergência entre os candidatos
Impostos
Ambos os candidatos prometem mudanças sobre os impostos hoje cobrados, mas no caso de Trump o impacto poderia ser mais significativo. Pelo lado da pessoa física, espera-se que Trump renove o plano de cortes de impostos de 2017, que vence agora, mantendo benefícios como menores taxas, maiores possibilidades de deduções, crédito fiscal para quem tem filhos, isenção fiscal estadual, dentre outros. Além disso, durante toda a campanha, o ex-presidente mencionou a possibilidade de isentar impostos das gorjetas, importante componente de renda da população norte-americana, além de isentar também impostos de benefícios sociais e trazer novas deduções para pais de filhos recém-nascidos. As medidas poderiam gerar economia de US$ 4 trilhões aos contribuintes ao longo da próxima década, de acordo com o apurado pelo Wall Street Jornal (WSJ). Já Harris deve seguir com o plano de Biden sobre limitar o aumento de impostos sobre famílias que ganham até US$ 400 mil/ano. A candidata também reforçou a possibilidade de um benefício fiscal de US$ 3 mil por criança, podendo chegar a US$ 6 mil por recém-nascido. Apesar da leve convergência sobre impostos para pessoas físicas, quando o assunto é empresa, a perspectiva muda. Harris pretende aumentar os impostos empresariais de volta para 28%, o que poderia elevar a arrecadação em US$ 1,3 trilhão nos próximos 10 anos, além de propor a taxação de ganhos de capital não-realizados. Já Trump pretende reduzir ainda mais as alíquotas empresariais, chegando a falar de redução dos atuais 21% para 20% ou até mesmo 15%.

Imigração
Neste tópico, os candidatos têm visão amplamente diferentes. Trump é conhecido por seu posicionamento contra imigração, impulsionado durante seu governo, e caso eleito deverá dar continuidade em seu plano de deportação em massa de imigrantes ilegais. Mas cabe a ressalva aqui de que o mesmo já citou inúmeras vezes a necessidade de abrir as portas do país para a entrada de “cérebros” (imigrantes altamente qualificados). No caso de Harris, vemos uma posição mais complacente, inclusive com plano de cidadania para imigrantes ilegais que já vivem no país há muito tempo. A candidata tem explorado bastante este ponto em campanhas.

Federal Reserve (Fed)
Aqui também temos posicionamentos divergentes entre os candidatos. Kamala Harris deve apresentar uma postura mais parecida com a de seu antecessor, reforçando a importância de um banco central independente. Trump, por outro lado, deve manter o posicionamento de seu primeiro governo, marcado por críticas à independência do banco central e os poderes limitados do presidente sobre a condição da política monetária nacional, tendo inclusive afirmado que nomearia uma “sombra” ao atual presidente do Fed, Jerome Powell, de modo a tentar influenciar na política monetária, dividindo a atenção do mercado até o fim do mandato do atual presidente, que se encerra em 15 de maio de 2026.

Meio ambiente e Energia
Outro ponto de forte discussão, Harris apresenta uma visão pró-meio ambiente, com uma voz mais ativa sobre mudanças climáticas e seus efeitos futuros. Trump, por sua vez, já chamou as mudanças climáticas de “piada de mau-gosto” e sinalizou que poderia reverter alguns benefícios fiscais, como o de veículos elétricos, por exemplo.
Comércio Exterior
Este é um tópico onde temos mais convergências que divergências. Ambos os candidatos demonstram preocupação com os trabalhadores norte-americanos e falam de taxação de produtos importados, com destaque para produtos chineses. Trump vai além e já sinalizou que poderá elevar tarifas para importações chinesas para até 60% e 10% a 20% para resto do mundo, inclusive aliados.

Geopolítica: como podem ser as relações com o restante do mundo?
Em meio a tantos conflitos geopolíticos em curso no globo, vemos até mais similaridades do que disparidades entre as posições dos candidatos. Quanto à guerra entre Rússia e Ucrânia, ambos os candidatos devem elevar os esforços e pressões para que um acordo seja feito pondo fim à guerra, mesmo que isso implique em perdas territoriais para a Ucrânia. Neste sentido, poderemos ver pressão de ambos quanto ao financiamento sobre armamento para membros da OTAN e aliados, com Estados Unidos pressionando a Europa para compartilhamento de custos.
No Oriente Médio, apesar de algumas divergências, como por exemplo a preferência de Harris para que os Estados Unidos retomem o acordo nuclear com Irã, Trump é mais incisivo em seus comentários sobre fim de armas nucleares iranianas. Os conflitos na faixa de Gaza também trazem alguns pontos de desencontros. Harris tem sido muito mais dura contra Israel e os ataques à Gaza, enquanto Trump deve seguir com apoio às defesas israelitas, porém focado em retirar as forças americanas da região.

Relações e tensões sino-americanas
Nas relações com China não devemos ver muita diferença do que já observamos atualmente, exceto pela parte de tarifação de importados, onde podemos esperar medidas mais agressivas por parte de Trump, que vê o país como um adversário econômico e pretende combate-lo por meio de tarifas e banimentos. Já Harris teria uma abordagem mais amena, reforçando parcerias com países vizinhos, mas ainda mantendo uma aversão às relações com o país.
Impactos nos investimentos e indicadores
Fizemos um levantamento dos principais indicadores macroeconômicos desde o início da década de 90 e comparamos seus desempenhos nos diferentes governos republicanos e democratas, incluindo as crises que tivemos ao longo deste período, Crise das ponto.com e Crise do Subprime, além da pandemia, eventos que influenciaram fortemente os mercados.
Apesar das incertezas que mudanças de governos trazem, em especial em um país polarizado como os Estados Unidos, o que vemos é que independente do partido no comando, os indicadores tendem a apresentar desempenho similares ao longo do tempo, sem grandes discrepâncias. Isto significa que qualquer um dos candidatos que subir à Casa Branca em 2025 deverá lidar com os desafios naturais de se governar a maior economia do mundo, deverá implementar parte de suas promessas de campanha, mas no fim, deveremos ver a economia seguir seu curso, conforme mostramos nos gráficos a seguir:
Crescimento econômico (PIB)
Como podemos ver, de 1993 até 2024 o PIB médio norte-americano teve um crescimento anual de 2%, independente do governo em questão. Lembrando que no primeiro período, estamos vendo o efeito da bolha das ponto.com, o que influenciou tanto o mercado acionário quanto a economia. Podemos dizer o mesmo do segundo período que se encerra com o estouro da crise do subprime, levando a um período de forte recuperação dos mercados com estímulos da política monetária conduzida pelo Fed. Mesmo com a pandemia em 2020, sob o governo de Bush, vimos um crescimento médio do PIB de 2%, com Biden sendo beneficiado pela recuperação pós-lockdown, apesar das pressões inflacionárias dos últimos anos.

Volatilidade dos mercados (VIX)
Período eleitoral gera incertezas, principalmente em mudanças de partidos, portanto é natural que esperemos maior volatilidade nos mercados nestes períodos. No entanto, os dados mostram que esta não é uma verdade absoluta. Ao longo dos últimos anos, tivemos momentos de maior ou menor volatilidade, mas no geral, nada muito fora da média quanto o assunto é política. Os catalisadores para uma volatilidade acima da média acabam sendo mais ligados às crises como Subprime e a pandemia, ou até mesmo períodos de incerteza com a condução da política monetária, como agora.

Variação Cambial (DXY)
No caso do dólar, vemos um comportamento interessante. A moeda norte- americana, medida pelo desempenho do índice DXY, oscila em valor, conforme a taxa de juros, inflação e outras variáveis, mas mantém seu poder de consumo perante outras moedas ao longo do tempo. Quando comparamos os períodos republicanos e democratas, temos os períodos republicanos com um dólar mais forte, geralmente, mas essa regra cai por terra no pós-pandemia. Desde 2020, o dólar vem ganhando força, seguindo a alta dos juros norte-americanos, e o índice mostra que a moeda americana está em seu melhor momento das últimas décadas.

Mercado acionário (S&P 500)
Exceto pelo período da grande crise financeira em 2008-2009 e que afetou o desempenho final do governo republicano à época, o S&P 500 manteve sua tendência de alta ao longo dos anos, com um desempenho médio anual de dois dígitos, entregando retornos de cerca de 12% ou mais. Isso mostra que a bolsa norte-americana se mantém resiliente, assim como a economia, independente do partido no poder. O desempenho está muito mais atrelado à saúde financeira e econômica das empresas e do país do que às medidas políticas em si. De qualquer maneira, podemos ver um ou outro setor beneficiado por políticas mais direcionadas, mas no geral, o mercado acionário norte-americano mantém sua trajetória ascendente.
