Fed irá pausar até setembro
Os dados recentes da economia americana continuam indicando sua robustez. Em janeiro, o mercado de trabalho adicionou 143 mil novos empregos, fazendo com que a taxa de desemprego recuasse para 4%, ao passo em que os salários continuam crescendo acima de 4% anualizados, indicando estabilidade ao redor desse valor, o que é inconsistente com a meta de inflação de 2% ao ano.

A inflação foi uma surpresa negativa em janeiro, com alta de 0,5% frente a dezembro, acompanhada de aceleração no núcleo da inflação, que avançou 0,4%. E o desempenho do núcleo preocupa, indicando elevado grau de persistência do processo inflacionário. Em apenas um dos últimos seis meses o núcleo da inflação ficou abaixo de 0,3%. Nos últimos 12 meses, o núcleo avança em média 0,3% ao mês, acumulando alta de 3,5%.
Não havia muitas justificativas para o Fed cortar a taxa de juros em setembro, e os dados recentes reforçam essa visão. A economia americana em momento algum deu sinais de que precisava de uma ajuda da política monetária. O que motivou o início do ciclo de cortes foi uma deterioração marginal do mercado de trabalho, com a taxa de desemprego tendo alcançado 4,3% em agosto. Entretanto, o principal fator por trás disso foi a não absorção da oferta de trabalho impulsionada pela forte entrada de imigrantes. Hoje, o que se vê é um mercado de trabalho em equilíbrio, logo, as justificativas para cortes nos juros já não são tão claras.

Com a inflação persistente, o Fed se viu na situação de pausar o ciclo de cortes. Para retomá-los será necessário uma de duas condições: ou a inflação apresenta um progresso mais firme em direção à meta, ou o mercado de trabalho piore de maneira significativa. Nenhuma dessas condições deverá ser satisfeita no curto prazo.
O mercado de trabalho dá sinais de acomodação em patamar robusto, com a média móvel de 3 meses de adição de emprego alcançando 240 mil empregos por mês, crescendo pelo terceiro mês consecutivo. Além disso, nota-se uma retomada dos empregos de atividades mais cíclicas, que crescem a uma taxa anualizada de 0,9% na média móvel de 3 meses, entrando em terreno positivo nessa métrica pela primeira vez desde novembro de 2022, ao passo em que não se observa sinais de demissões em massa e o ritmo de contratação está relativamente estável no patamar pré-pandemia. Ou seja, os dados sugerem um mercado de trabalho em equilíbrio, em que não é tão fácil ser contratado, mas também não é fácil ser demitido.


Por outro lado, a inflação não dá muitos sinais de que irá desacelerar de maneira significativa no curto prazo. Estimamos que a inflação americana encerre 2025 com alta acumulada de 2,8%. Entretanto, esse cenário é rodeado de incertezas, especialmente em relação às tarifas que o governo Trump tem ameaçado implementar. Caso o governo prossiga e implemente as tarifas recíprocas, estimamos que a inflação encerre o ano com alta de 3,2%.

Finalmente, a economia americana deve continuar crescendo em ritmo robusto em 2025. Esperamos um crescimento de 2,4% no ano, motivado pelas medidas desreguladoras e ampliação no corte dos impostos. A imposição das tarifas deverá impactar negativamente, mas não o suficiente para desacelerar a economia. Porém, um risco para esse cenário seria a imposição de tarifas universais, que teria um impacto mais significativo sobre o PIB, mas é algo que consideramos com baixa probabilidade de ocorrer.
Portanto, sob o nosso cenário base não há urgência para o Fed retomar o ciclo de cortes. Os dois cortes adicionais, previstos pelo próprio Fed em dezembro, ainda seriam razoáveis, mas não estritamente necessários.
