Macroeconomia


Análise | Tarifas de Trump

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André Valério

Publicado 03/abr

Make Volatility Great Again

Trump finalmente anunciou suas tarifas recíprocas, que de recíprocas não tem nada. Havia a expectativa de que as tarifas seria uniformes para todos os países, e o mercado esperava algo entre 10 e 20% de tarifas sobre todos os produtos importados. De fato, Trump anunciou uma tarifa uniforme de 10%. Mas o que pegou todos de surpresa é que essa alíquota de 10% seria um valor mínimo e acumulativo com tarifas previamente impostas. Por exemplo, a tarifa anunciada para as importações chinesas ontem foi de 34%, que somarão aos 20% já em prática desde o início do mandato, tornando a tarifa efetiva em 54% para produtos chineses. Elas também acumulam com as tarifas sobre aço e sobre veículos, previamente anunciadas. Assim, as medidas foram muito mais duras que o esperado.

Cabe mencionar também a forma como essas tarifas foram calculadas, que não tem base alguma na teoria econômica e tampouco tenta otimizar nem o impacto na balança comercial, nem o potencial arrecadatório. O que o time de Trump fez foi simplesmente pegar o saldo comercial que os Estados Unidos tem com cada país e dividir pelo montante que os Estados Unidos importa desse país. Países que possuem uma balança equilibrada com os EUA receberam a tarifa mínima, de 10%.

Essa métrica não significa absolutamente nada em termos de barreiras comerciais. Para ilustrar, considere os casos de Brasil e Singapura, que receberam a tarifa mínima de 10%. O Brasil está entre os países que mais tarifam as importações no mundo, podendo chegar a 60% do valor do bem, sendo que ainda incorrem os impostos estaduais, como o ICMS, que pode levar a tarifa efetiva para 100% do valor do bem. Por outro lado, Singapura é notadamente conhecido como um dos países mais abertos ao comércio internacional, com uma tarifa efetiva de importação de apenas 0,22% em 2022. Ainda assim, Brasil e Singapura receberam o mesmo tratamento.

O plano proposto é bastante complexo, pois são várias regras diferentes para diversos países. Portanto, existe a incerteza de como será a implementação. Além disso, existe a incerteza da retaliação dos outros países, o que poderia dar início à guerra tarifária.

Os mercados reagiram muito mal ao anúncio. Havia a expectativa de que as tarifas seria uniformes para todos os países, devido a sua fácil implementação, e foi algo ventilado por membros do alto escalão do governo Trump ao longo da semana. Com o anúncio das tarifas efetivas, tanto os juros americanos quanto o dólar caíram fortemente. A taxa de 10 anos recuou de 4,23% para 4,04%, enquanto o dólar, medido pelo índice DXY, caiu mais de 2%.

O movimento do dólar chama a atenção, pois em episódios anteriores de aumento de tarifas feitos por diversos países, uma consequência comum foi a valorização da moeda do país que impôs as tarifas, limitando o impacto inflacionário. Não é o que se vê nesse primeiro momentos pós anúncio. O comportamento dos juros e do dólar sugerem que o mercado passa a precificar uma maior probabilidade de que a economia americana entre em recessão nos próximos meses.

O impacto sobre a economia brasileira é misto. Por um lado, o fato do Brasil ter recebido a menor alíquota, coloca as exportações brasileiras para os Estados Unidos em posição privilegiada, podendo ganhar market-share. Além disso, caso haja retaliações por parte dos outros países, o Brasil pode observar um aumento na demanda por suas exportações. Entretanto, para esse movimento dependerá do impacto das tarifas sobre a economia do resto do mundo, em particular da União Europeia e da China. Se a China entrar em recessão por conta das tarifas de 54% em seus produtos, podemos ver um efeito líquido negativo nas nossas exportações.

Além disso, devemos ver um impacto positivo sobre o real, que pode surfar a onda de desvalorização global do dólar. Na abertura da sessão de hoje o real chegou a cotar R$5,61, menor valor desde outubro. Por outro lado, os juros futuros podem cair, acompanhando o movimento global, mas isso não é necessariamente uma boa notícia, pois reflete uma visão de recessão na economia americana, o que pode se transformar em uma recessão global, especialmente se houver retaliação por parte dos outros países.

Concomitante ao anúncio de Trump, tivemos o anúncio surpresa da OPEP de aumento na produção de petróleo para 411 mil barris de petróleo por dia, bem acima do esperado. Com isso, o preço futuro do petróleo cai cerca de 7% desde o anúncio, o que pode dar um alívio na inflação global. Em particular, isso pode permitir à Petrobrás aprofundar o corte no preço dos combustíveis, que nos últimos dias anunciou cortes no diesel e na querosene.

O cenário que já era complexo ficou consideravelmente mais incerto. Ainda assim, isso pode contribuir para o Copom pausar o atual ciclo de alta dos juros em breve, e não descartamos a possibilidade de pausa já na próxima reunião. Tendo aumentado os juros em 375 pontos base desde o início do ciclo e com mais uma alta prometida, o cenário demandará prudência por parte da autoridade monetária, para averiguar o impacto combinado das medidas de aperto monetário e dos eventos internacionais. Assim, podemos ter o fim do ciclo na próxima reunião. Mantemos a nossa projeção de alta de 50 pontos em maio, mas podemos ver uma precificação no mercado de uma alta menor, a depender do desenvolvimento dos fatos nos próximos dias.


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